10 outubro 2005
25 junho 2005
VENTANIA
Ventava. Ventava como se fosse o último vento de todos os tempos. Como se Deus tivesse dado o último suspiro e expirado uma imensa massa de ar. Alguns ramos mais altos das árvores da rua tocavam o asfalto, tal era a força das correntes. Quanto a mim, eu me segurava na poltrona da sala, enfiado numa roupa tão velha quanto eu, ou mais. E era tudo espiado pela janela. A velha que segurava o vestido e o chapéu. O cachorro que lambia o vento que lhe batia nas fuças. De repente ambos me pareceram tão nobres e não com menor velocidade já não pareciam mais. O cachorro. A velha. O cachorro. Fechei os olhos para não vê-lo sob a roda de um chevete branco e acabado que atravessara o cruzamento. Ai cachorro! Se não me tivesse censurado com aquele olhar, o teria chingado (o motorista) de "-Cachorro!" Mas vi os seus olhos que ladravam perdidos e procuravam vesgos de onde viera o filho da puta! Cachorros não ganem palavrões... Seus olhos, no entanto, ganiram. Latiram ingênuos. Foi isso o que mais me fez ter vontade de levantar da poltrona quente. Não a velha que caíra na calçada. O vento de tão forte, a impediu de respirar e, asfixiada, tombou de cara ao meio fio. De cara às fezes que o cachorro (o mesmo) liberara ali, havia três minutos. Fosse a velha ainda viva e gritaria: "- Maldito filho da puta!" Mas não gritou. Morte não teme carranquice. Ao menos não temeu. Foi o que se passou naquela avenida durante a ventania até que o vento cessou. E isso seria tudo não fosse pelo cachorro, que levantou algum tempo depois e disparou manco para uma direção qualquer.
11 junho 2005
Avô que se vai
Há algum tempo meu avô morreu e pronto. Não teve mais volta. Teve é muito chororô. Teve vela, flor de velório, enterro. Uma tristeza só. Eu chorei de monte. Todo mundo o fez. Depois melhorou um pouco. Meu avô era muito querido por aqui. Desde sempre morou em casa, digo, na minha casa. Desde que minha avó se foi. Posso dizer com todas as letras que era um avô e tanto. Dormíamos no mesmo quarto, usávamos o mesmo banheiro, comíamos a mesma comida, conversávamos com as mesmas pessoas. Tínhamos vidas bastante semelhantes ainda que às vezes, nem tanto. Era um cara muito louco. E eu senti muito quando se foi. Não que ainda não sinta, mas você sabe, o tempo dá um trato estranho nas coisas. E tenho andado tão ocupado no último semestre de faculdade que simplesmente foi difícil lembrar de algo além de Newton e Leibniz. Outros dois muito loucos. Especialmente o mais famoso, o tal de Newton. O cara ficava absolutamente irado quando desciam o cacete em alguma coisa que ele afirmava. O cara era um demente. Já o meu avô não ficava irado não. Isso nunca acontecia. O que ele ficava era aborrecido. Quando um dos seus doze filhos aprontava alguma ou sei lá, fazia alguma barbaridade.
Comigo eu sei que ele teve uns aborrecimentos. Poucos e inevitáveis para duas pessoas que convivem juntas durante tanto tempo. Eu não me arrependo de nada. Aposto que ele também diria o mesmo. Na verdade acho que não. Acho que essa frase não faria o menor sentido em sua boca. Sei lá por quê. Não me parece familiar meu avô dizendo “Não me arrependo de nada, cacholica”. Cacholica era como costumava chamar a todos os cachorros que passaram algum tempo em casa. Algum tempo por que minha mãe tinha o costume de livrar-se deles certo tempo depois que chegavam. Às vezes um bom tempo.
A única cacholica que minha mãe não deu embora foi embora da vida do meu avô uma semana antes dele ir embora da vida da gente. Ela morreu, ele morreu e todo mundo deve ter morrido um pouco. Vi num documentário esses dias sobre a guerra do Iraque um soldado dizendo que a cada um que ele matava um pouco dele morria junto. Não era bem esse o caso por aqui, mas com certeza todo mundo morreu um pouco sim.
O fato é fiquei pensando esses dias nas paredes que o meu avô pegava, nos pratos que ele comia, nas colheres com que ele punha comida na boca, nas fronhas de travesseiro em que ele dormiu e babou, nos tique-taques de lâmpadas em que ele esfregava os dedos sujos, nos sofás em que ele despejava o corpo magrelo e limpo. Sei lá por que, essa coisa brotou na minha cabeça de novo. E tudo o que ele tinha pego, sentado, molhado com saliva e urinado sobre, agora tinha cada vez menos dele. O tempo passava e a cada dia o vento arrastava embora umas células que restaram em algum móvel. E no box e no piso do banheiro as células iam embora com a água e tudo o mais. Fiquei com vontade de não deixar a empregada lavar mais nada no outro dia. Mas sei lá, isso me deixou ainda pior.
Meu avô se foi e, no entanto, continua indo. Isso me deprimiu pra caramba. Quem sabe agora com o fim das férias eu pare de pensar nessas bobagens. Com certeza vou parar. Não vou ter tempo pra nada. Mas tem coisas que não necessitam de tempo para acontecer. Parece que vivem com a gente na cabeça e de repente por um motivo qualquer você se lembra delas e pronto. Não tem mais volta.
Comigo eu sei que ele teve uns aborrecimentos. Poucos e inevitáveis para duas pessoas que convivem juntas durante tanto tempo. Eu não me arrependo de nada. Aposto que ele também diria o mesmo. Na verdade acho que não. Acho que essa frase não faria o menor sentido em sua boca. Sei lá por quê. Não me parece familiar meu avô dizendo “Não me arrependo de nada, cacholica”. Cacholica era como costumava chamar a todos os cachorros que passaram algum tempo em casa. Algum tempo por que minha mãe tinha o costume de livrar-se deles certo tempo depois que chegavam. Às vezes um bom tempo.
A única cacholica que minha mãe não deu embora foi embora da vida do meu avô uma semana antes dele ir embora da vida da gente. Ela morreu, ele morreu e todo mundo deve ter morrido um pouco. Vi num documentário esses dias sobre a guerra do Iraque um soldado dizendo que a cada um que ele matava um pouco dele morria junto. Não era bem esse o caso por aqui, mas com certeza todo mundo morreu um pouco sim.
O fato é fiquei pensando esses dias nas paredes que o meu avô pegava, nos pratos que ele comia, nas colheres com que ele punha comida na boca, nas fronhas de travesseiro em que ele dormiu e babou, nos tique-taques de lâmpadas em que ele esfregava os dedos sujos, nos sofás em que ele despejava o corpo magrelo e limpo. Sei lá por que, essa coisa brotou na minha cabeça de novo. E tudo o que ele tinha pego, sentado, molhado com saliva e urinado sobre, agora tinha cada vez menos dele. O tempo passava e a cada dia o vento arrastava embora umas células que restaram em algum móvel. E no box e no piso do banheiro as células iam embora com a água e tudo o mais. Fiquei com vontade de não deixar a empregada lavar mais nada no outro dia. Mas sei lá, isso me deixou ainda pior.
Meu avô se foi e, no entanto, continua indo. Isso me deprimiu pra caramba. Quem sabe agora com o fim das férias eu pare de pensar nessas bobagens. Com certeza vou parar. Não vou ter tempo pra nada. Mas tem coisas que não necessitam de tempo para acontecer. Parece que vivem com a gente na cabeça e de repente por um motivo qualquer você se lembra delas e pronto. Não tem mais volta.
10 junho 2005
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