Ventava. Ventava como se fosse o último vento de todos os tempos. Como se Deus tivesse dado o último suspiro e expirado uma imensa massa de ar. Alguns ramos mais altos das árvores da rua tocavam o asfalto, tal era a força das correntes. Quanto a mim, eu me segurava na poltrona da sala, enfiado numa roupa tão velha quanto eu, ou mais. E era tudo espiado pela janela. A velha que segurava o vestido e o chapéu. O cachorro que lambia o vento que lhe batia nas fuças. De repente ambos me pareceram tão nobres e não com menor velocidade já não pareciam mais. O cachorro. A velha. O cachorro. Fechei os olhos para não vê-lo sob a roda de um chevete branco e acabado que atravessara o cruzamento. Ai cachorro! Se não me tivesse censurado com aquele olhar, o teria chingado (o motorista) de "-Cachorro!" Mas vi os seus olhos que ladravam perdidos e procuravam vesgos de onde viera o filho da puta! Cachorros não ganem palavrões... Seus olhos, no entanto, ganiram. Latiram ingênuos. Foi isso o que mais me fez ter vontade de levantar da poltrona quente. Não a velha que caíra na calçada. O vento de tão forte, a impediu de respirar e, asfixiada, tombou de cara ao meio fio. De cara às fezes que o cachorro (o mesmo) liberara ali, havia três minutos. Fosse a velha ainda viva e gritaria: "- Maldito filho da puta!" Mas não gritou. Morte não teme carranquice. Ao menos não temeu. Foi o que se passou naquela avenida durante a ventania até que o vento cessou. E isso seria tudo não fosse pelo cachorro, que levantou algum tempo depois e disparou manco para uma direção qualquer.
3 comentários:
Eu me lembro deste texto! Lembro que tinha gostado bastante na época em que você me mandou - e continuo a gostar, claro! :-) Você chegou a fazer modificações?
Aquela aula sobre ópera foi outro dia na faculdade - depois conto mais sobre ela no post. Estou pensando em algum dia ministrar uma aula dessas por aqui e, se der certo, aviso a você.
A Associação de Escritores é a AEPPTI sim! As reuniões são todo terceiro sábado de cada mês (a de Julho será no dia 16), às 16h, na sede. Seria muito legal se você pudesse ir!
Olá... Pois é, o Tim Burton tem filmes adoráveis... Eu sou muito fã dele... Acho ele genial...
E aê Manta... muito bacana o texto... não sei se é real, mas mesmo não sendo é uma bela história...
Abraço
ps: vamos tocar nas férias hein...
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