25 junho 2005

VENTANIA

Ventava. Ventava como se fosse o último vento de todos os tempos. Como se Deus tivesse dado o último suspiro e expirado uma imensa massa de ar. Alguns ramos mais altos das árvores da rua tocavam o asfalto, tal era a força das correntes. Quanto a mim, eu me segurava na poltrona da sala, enfiado numa roupa tão velha quanto eu, ou mais. E era tudo espiado pela janela. A velha que segurava o vestido e o chapéu. O cachorro que lambia o vento que lhe batia nas fuças. De repente ambos me pareceram tão nobres e não com menor velocidade já não pareciam mais. O cachorro. A velha. O cachorro. Fechei os olhos para não vê-lo sob a roda de um chevete branco e acabado que atravessara o cruzamento. Ai cachorro! Se não me tivesse censurado com aquele olhar, o teria chingado (o motorista) de "-Cachorro!" Mas vi os seus olhos que ladravam perdidos e procuravam vesgos de onde viera o filho da puta! Cachorros não ganem palavrões... Seus olhos, no entanto, ganiram. Latiram ingênuos. Foi isso o que mais me fez ter vontade de levantar da poltrona quente. Não a velha que caíra na calçada. O vento de tão forte, a impediu de respirar e, asfixiada, tombou de cara ao meio fio. De cara às fezes que o cachorro (o mesmo) liberara ali, havia três minutos. Fosse a velha ainda viva e gritaria: "- Maldito filho da puta!" Mas não gritou. Morte não teme carranquice. Ao menos não temeu. Foi o que se passou naquela avenida durante a ventania até que o vento cessou. E isso seria tudo não fosse pelo cachorro, que levantou algum tempo depois e disparou manco para uma direção qualquer.