25 fevereiro 2010

O chamado da mala

            Depois da viagem de carnaval, uma imagem me vem sempre à cabeça. O lampejo embora com um quê de maldade, não deixa de ser bem apropriado. Especialmente aos que gostam mesmo é de viajar, com algum trocado no bolso e muita disposição.
            Pegando as malas, ao fim do vôo já em Campinas vi-me rodeado de gente em busca de sua trouxa. Das mais diversas; coloridas, com fitinha, com laço, com etiqueta, de couro, de promoção, de improviso, do Robocop, do Falcão, malões, maletas, malas sem alça, malas de carrinho ou de pendurar, com cadeado, com lacre, com câmera, velhas, surradas, herdadas. Enfim, entes da família, filhas mesmo, daí o paralelo infantil.
            As pessoas vinham chegando e se aproximavam da esteira de bagagens, preenchendo os vazios e buscando uma vaga para a tão importante empreitada. A parte boa da viagem é essa, quando você recupera a sua maleta, cheia de apetrechos e badulaques trazidos daquele distante lugar recém visitado. Qualquer descuido e algum marginal ou velhinho confuso toma a sua mala e um abraço. Toda sua viagem estará perdida. Os olhares percorrem toda a extensão do equipamento, às vezes parando em algum ponto, na dúvida. “Será essa?” Eis que ela vem chegando, chegando, sorrindo, gritando mamãe e ... um velinho de óculos fundo de garrafa a tasca. Inspeciono, mas me convenço. É dele.
            Às vezes demora.   Fico lá, plantado por longos minutos. Um magrelinho aperta-se ao lado e, concentrado, tenta retirar um guarda roupa que vinha dançando pela esteira. As perninhas tremem, titubeiam, e quase são arrastadas pelas beiradas enquanto sou pisoteado e empurrado. “Opa, eu te ajudo” - digo com alguns hematomas. Dá pra ver uns e outros apontando lá do outro lado do percurso com aquele sorriso interno.
            Ocorre que na creche a coisa não difere muito disso não. A tropa de pais em frente ao portão, esperando sua maleta. Maleta essa que, ao contrário do anterior, atrapalha e inviabiliza viagens. Umas com fitinha, laço, etiqueta, de improviso, com câmera, herdadas e até as sem alça. Mesmo por essas, salvo raras exceções, sempre há alguém esperando. Alguém que acompanha as curvas da esteira e quando, tendo dado a volta toda, dá com a portinha de saída com aquela lona preta que não nos permite ver o lado de lá, recomeça a busca, como que ouvindo um chamado distante.

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